Finais da década de 70-80...
À hora marcada lá estávamos nós em casa do Fausto. Descíamos até uma pequena divisão, na cave, onde se amontoavam roupas usadas, antigas, à espera deste dia para saírem à rua. Abríamos os nossos sacos cheios de trapos e fatiotas mal combinadas, na tentativa de nos disfarçarmos o melhor que imaginávamos.
Eu, o Moreira e o Fausto, o trio de leste, companheiros de tantos carnavais, preparávamo-nos para mais um desfile no "sambódromo inexistente" das ruas de Casal do Lobo. A coisa estava mais ou menos combinada e o tema daquele Carnaval era coisa nenhuma, uma velha, um velho e o filho... já não me lembro bem.
Naquela altura não havia a loja da "Mascarilha", nem dinheiro para investir em disfarces ou acessórios e a solução era o reutilizar roupas velhas e usadas, acumuladas em guarda-vestidos e malas de madeira, já com traça, cheiro a mofo ou à naftalina. A troca de máscaras, normalmente rígidas e desgastadas, era também comum. Com meia dúzia de tocados comprávamos bombinhas de rastilho, estalos e bombas de mau cheiro.
No lusco-fusco, lá íamos de porta em porta, batendo aqui e ali. Umas casas abriam a porta, outras não. As que ousavam abrir, sabiam que éramos miúdos, e tentavam descobrir quem estava por detrás da máscara. Entre grunhidos, vozes distorcidas, gestos provocados, guinchos, lá se descobria o primeiro mascarado... - É o Sérgio, o filho do Albano! Logo ficava mais fácil de adivinhar ou outros dois, pois o trio já era conhecido de outros carnavais e de outras brincadeiras.
Recebíamos dinheiro, ovos, chouriços, rebuçados... Ficávamos felizes e contentes com tão pouco. Minutos de emoção, um misto de brincadeira, medo, adrenalina, entusiasmo, mas também tristeza e desilusão quando não nos davam troco ou atenção. Quando não nos abriam a porta, fazíamos de tudo para irritar os vizinhos, muito barulho, batíamos repetidamente, desarrumávamos os vasos, atávamos as portas e portões, ou largávamos uma bombita.
Por vezes cruzávamo-nos com outros grupos de mascarados, que no início eram muitos e até vinham de outras aldeias. Tínhamos um medo do "caraças" dos grupos mais velhos, mas nunca alinhávamos em provocações.
Corríamos a aldeia de lés a lés. Sábado, domingo, segunda e terça, em cada dia uma fatiota diferente, uma ilusão fantástica e uma emoção indescritível para três putos de uma aldeia, dos arredores de cidade do "conhecimento".
No final dividíamos os pertences angariados e fazíamos uma bela merenda, normalmente em casa do Moreira, com ajuda da "ti Cila".
...assim era o Carnaval trapalhão no Casal do Lobo e de que guardo memórias fantásticas...

