A história de Rolihlahla Dalibhunga podia ter ficado contada aos
nove anos. O pai, Gadla Henry Mphakanyiswa, perdia o combate com a tuberculose
e deixava a família, de quatro mulheres e treze filhos, sem os privilégios e proteção
que o seu estatuto de conselheiro tribal lhes conferia. Mas a história de
Rolihlahla é a de um gigante. Um gigante que hoje se despediu aos 95 anos, na
sua casa em Joanesburgo. Morreu sem nunca ter tido tempo para viver.
Forçado a abandonar a aldeia para se tornar no primeiro filho de
Mphakanyswa com estudos, foi enviado para Weslyan, um colégio inglês onde
chegaria sozinho, descalço mas com as calças do pai, amarradas por um cordel,
para não ferir as suscetibilidades de um colégio com regras de 1927 e que lhe
abriria as portas de um novo Mundo. Um Mundo que rapidamente lhe mostraria ser
pouco dado a aceitar as diferenças. Primeiro, foi o nome que teve de ser
mudado. Rolihlahla, que traduz para agitador, foi trocado por Nélson e de
Dalibhunga passou a Mandela. "Nunca ninguém na minha família tinha ido à
escola e no primeiro dia a Miss Mdingane deu-nos um nome inglês a todos. Não sei
porquê Nelson, mas era costume", escreveu na autobiografia, Uma longa
caminhada para a liberdade.


Em vez de três, precisou apenas de dois anos para completar o
liceu e seguiu para universidade de Fort Hare onde o Mundo lhe reservava outra
surpresa - acabou expulso por se ter envolvido na associação de estudantes.
Para tornar o cenário menos promissor, da sua terra natal chegavam notícias de
um casamento combinado para manter o estatuto da linhagem na aldeia e que o
obrigaria a abdicar dos estudos. Como resposta, fugiu para Joanesburgo onde
trabalhou como segurança numa mina, prestou apoio num escritório de advogados e
onde, em 1944, se juntou ao Congresso Nacional Africano, um pequeno grupo de
oposição ao regime do Partido Nacional, racista e liderado exclusivamente por
brancos. Imediatamente fundou a Juventude do partido e em 1952, já licenciado,
abria, com o amigo Oliver Tambo, um escritório de advogados dedicado
exclusivamente aos negros sul-africanos. Inevitavelmente, os problemas com a
lei subiram de nível. Em 1956, juntamente com 155 ativistas foi julgado por
traição e na entrada da década de sessenta é mesmo obrigado a passar à
clandestinidade. No entanto, em Março de 1960 um evento viria a alterar a forma
de combate. Numa manifestação de estudantes, em Sharpeville, a polícia abriu
fogo matando, pelo menos, 69 e ferindo perto de 300. Nesse momento, Mandela
mudou de estratégia. Endureceu, fundou "A Lança da Nação", o braço
armado do CNA, e rumou à Argélia para receber treino em técnicas de guerrilha.
No regresso, em 1962, seria preso. Acusação: promover uma greve e sair do país
sem passaporte.

"Estou preparado para cumprir qualquer tipo de pena, apesar
de saber como é desesperante a situação dos africanos nas prisões deste país.
Já estive nessas prisões e sei como é repugnante a discriminação contra os
africanos atrás das grades. De qualquer forma, nada será capaz de me afastar do
caminho que escolhi", disse Mandela, enquanto esperava a sentença, em
entrevista à revista Veja. Nessa altura, o discurso estava longe do esperado
num futuro prémio Nobel da paz. Sobre a oposição violenta avisava que "a
disputa pode ser resolvida pela força". "Já existem sinais de que o
povo, o meu povo, está a adotar atos deliberados de violência contra o governo,
de forma a convencê-lo no único idioma que parece entender", dizia sem
esconder o "ódio" ao regime de então e, dizendo-se pronto para
"qualquer pena", prometendo que cumprida a prisão retomaria "na
maneira que for possível, a luta pelo fim das injustiças até que elas estejam
abolidas para sempre". Quantos terão acreditado? E quantos terão imaginado
que 27 anos depois seria esse terrorista, estatuto que nos Estados Unidos só
perdeu oficialmente em 2008, a impedir uma guerra civil num país com mais de 50
milhões de habitantes?
Em 1962 esteve meses à espera de acusação e a sentença só a
conheceria na globalidade dois anos mais tarde. Em Julho de 1963, 10 ativistas
do CNA foram presos e acusados de 221 atos de sabotagem para derrubar o
governo. Mandela, há mais de um ano preso na maior prisão de Joanesburgo,
acabou incluído no lote. "Celebrei a ideia de uma sociedade livre e
democrática na qual todas as pessoas vivem juntas em harmonia e com
oportunidades iguais. É um ideal pelo qual espero viver e o qual espero alcançar.
Se for necessário, é um ideal pelo qual estou pronto para morrer",
declarou ao tribunal onde recusou o apoio de qualquer advogado. Nessa altura,
sabendo que sobre ele pendia a ameaça de pena de morte, já terão sido mais os
que acreditaram na convicção do temido terrorista.

Foi preso aos 44 anos, ia no segundo casamento e tinha quatro
filhos. Quando foi preso, os Estados Unidos travavam a guerra no Vietname e
estavam a ser invadidos pelos Beatles, quando foi libertado os norte-americanos
invadiam o Panamá para derrubar o General Noriega e de Seattle exportavam os
Nirvana para o Mundo. Mas os anos passados entre trabalhos forçados e as
pequenas celas de Robben Island, hoje uma das principais atrações turísticas
sul-africanas, nunca o quebraram. Trocou cartas com Winnie, como quem casara
pouco antes da prisão, aprendeu boxe e em 1985 ainda tinha energia suficiente
para recusar um pedido de liberdade condicional em troca da recusa da
resistência armada. Nessa altura todos perceberam que a jura feita mais de
vinte anos antes era para cumprir - assim que voltasse à liberdade a luta
continuaria. A convicção valeu-lhe uma espera de mais cinco anos, sempre na
cela com pouco mais de um metro quadrado.
Em 1990, Frederik Willem de Klerk, o último presidente branco da
África do Sul, levantava a proibição dos movimentos negros e a 11 de Fevereiro
Mandela voltava à rua equilibrando, pela primeira na história da África do Sul,
a balança de poder entre brancos e negros. Os brancos, ainda no governo, sabiam
que em eleições Mandela seria imbatível. Pelo seu lado, os negros, muitos
sequiosos de vingança, esperavam pela oportunidade de conquistar o que há
décadas ansiavam. Mas no discurso que fez na câmara da Cidade do Cabo, a
palavra "paz" surgiu antes de "democracia" e
"liberdade" e de garantir que o caminho que começara a trilhar há
mais de trinta anos era irreversível. "Não podemos permitir que o medo nos
atrapalhe. Sufrágio universal para os eleitores numa África do Sul não racista
e unida é o único caminho para paz e harmonia racial", disse a concluir.
Mas se Mandela foi gigante na resistência e, depois da subida ao poder, gigante
ao evitar conflitos numa nação com onze etnias e uma profunda ferida a separar
brancos e negros, pouco tempo teve para o ser enquanto governante. Prémio Nobel
da Paz - partilhado com De Klerk - e eleito presidente da África do Sul em
1993, Mandela cedeu o lugar apenas cinco anos depois. Mais um exemplo dado a um
continente marcado por líderes que se eternizam no poder.

Um divórcio litigioso com Winnie Mandela, um terceiro casamento
aos 80 anos com Graça Machel (viúva de Samora Machel), um campeonato do Mundo
de râguebi em que pôs negros a torcer pela seleção ‘branca' - a história está
contada em Invictus, de Clint Eastwood -, um filho a morrer de sida e uma
campanha mundial de angariação de fundos e de alerta para os perigos da doença
valeram-lhe uma reforma ativa e a perpetuação do estatuto de Madiba, o pai da
nação. Aos 95 anos, Mandela despediu-se depois de uma infeção pulmonar o ter
obrigado a meses de internamento e outros tantos em casa já sem capacidade
para, sequer, falar. Despediu-se "tranquilamente", garantiu o
presidente Jacob Zuma, deixando o país em lágrimas. Em 95 anos de vida, a
Mandela roubaram-lhe o tempo para ser gigante no poder e viver em liberdade.
Retribuiu mostrando que não é o cargo quem muda o Mundo e deixou-o melhor do
que o encontrou. No final de uma vida apressada, a longa caminhada foi
cumprida. A África do Sul fica órfã, mas livre.