segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

5 Dezembro 2013 - Mandela despediu-se hoje aos 95 anos. Deixa a África do Sul órfã, mas livre.


A história de Rolihlahla Dalibhunga podia ter ficado contada aos nove anos. O pai, Gadla Henry Mphakanyiswa, perdia o combate com a tuberculose e deixava a família, de quatro mulheres e treze filhos, sem os privilégios e proteção que o seu estatuto de conselheiro tribal lhes conferia. Mas a história de Rolihlahla é a de um gigante. Um gigante que hoje se despediu aos 95 anos, na sua casa em Joanesburgo. Morreu sem nunca ter tido tempo para viver.
Forçado a abandonar a aldeia para se tornar no primeiro filho de Mphakanyswa com estudos, foi enviado para Weslyan, um colégio inglês onde chegaria sozinho, descalço mas com as calças do pai, amarradas por um cordel, para não ferir as suscetibilidades de um colégio com regras de 1927 e que lhe abriria as portas de um novo Mundo. Um Mundo que rapidamente lhe mostraria ser pouco dado a aceitar as diferenças. Primeiro, foi o nome que teve de ser mudado. Rolihlahla, que traduz para agitador, foi trocado por Nélson e de Dalibhunga passou a Mandela. "Nunca ninguém na minha família tinha ido à escola e no primeiro dia a Miss Mdingane deu-nos um nome inglês a todos. Não sei porquê Nelson, mas era costume", escreveu na autobiografia, Uma longa caminhada para a liberdade.
Em vez de três, precisou apenas de dois anos para completar o liceu e seguiu para universidade de Fort Hare onde o Mundo lhe reservava outra surpresa - acabou expulso por se ter envolvido na associação de estudantes. Para tornar o cenário menos promissor, da sua terra natal chegavam notícias de um casamento combinado para manter o estatuto da linhagem na aldeia e que o obrigaria a abdicar dos estudos. Como resposta, fugiu para Joanesburgo onde trabalhou como segurança numa mina, prestou apoio num escritório de advogados e onde, em 1944, se juntou ao Congresso Nacional Africano, um pequeno grupo de oposição ao regime do Partido Nacional, racista e liderado exclusivamente por brancos. Imediatamente fundou a Juventude do partido e em 1952, já licenciado, abria, com o amigo Oliver Tambo, um escritório de advogados dedicado exclusivamente aos negros sul-africanos. Inevitavelmente, os problemas com a lei subiram de nível. Em 1956, juntamente com 155 ativistas foi julgado por traição e na entrada da década de sessenta é mesmo obrigado a passar à clandestinidade. No entanto, em Março de 1960 um evento viria a alterar a forma de combate. Numa manifestação de estudantes, em Sharpeville, a polícia abriu fogo matando, pelo menos, 69 e ferindo perto de 300. Nesse momento, Mandela mudou de estratégia. Endureceu, fundou "A Lança da Nação", o braço armado do CNA, e rumou à Argélia para receber treino em técnicas de guerrilha. No regresso, em 1962, seria preso. Acusação: promover uma greve e sair do país sem passaporte.
"Estou preparado para cumprir qualquer tipo de pena, apesar de saber como é desesperante a situação dos africanos nas prisões deste país. Já estive nessas prisões e sei como é repugnante a discriminação contra os africanos atrás das grades. De qualquer forma, nada será capaz de me afastar do caminho que escolhi", disse Mandela, enquanto esperava a sentença, em entrevista à revista Veja. Nessa altura, o discurso estava longe do esperado num futuro prémio Nobel da paz. Sobre a oposição violenta avisava que "a disputa pode ser resolvida pela força". "Já existem sinais de que o povo, o meu povo, está a adotar atos deliberados de violência contra o governo, de forma a convencê-lo no único idioma que parece entender", dizia sem esconder o "ódio" ao regime de então e, dizendo-se pronto para "qualquer pena", prometendo que cumprida a prisão retomaria "na maneira que for possível, a luta pelo fim das injustiças até que elas estejam abolidas para sempre". Quantos terão acreditado? E quantos terão imaginado que 27 anos depois seria esse terrorista, estatuto que nos Estados Unidos só perdeu oficialmente em 2008, a impedir uma guerra civil num país com mais de 50 milhões de habitantes?
Em 1962 esteve meses à espera de acusação e a sentença só a conheceria na globalidade dois anos mais tarde. Em Julho de 1963, 10 ativistas do CNA foram presos e acusados de 221 atos de sabotagem para derrubar o governo. Mandela, há mais de um ano preso na maior prisão de Joanesburgo, acabou incluído no lote. "Celebrei a ideia de uma sociedade livre e democrática na qual todas as pessoas vivem juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal pelo qual espero viver e o qual espero alcançar. Se for necessário, é um ideal pelo qual estou pronto para morrer", declarou ao tribunal onde recusou o apoio de qualquer advogado. Nessa altura, sabendo que sobre ele pendia a ameaça de pena de morte, já terão sido mais os que acreditaram na convicção do temido terrorista.
Foi preso aos 44 anos, ia no segundo casamento e tinha quatro filhos. Quando foi preso, os Estados Unidos travavam a guerra no Vietname e estavam a ser invadidos pelos Beatles, quando foi libertado os norte-americanos invadiam o Panamá para derrubar o General Noriega e de Seattle exportavam os Nirvana para o Mundo. Mas os anos passados entre trabalhos forçados e as pequenas celas de Robben Island, hoje uma das principais atrações turísticas sul-africanas, nunca o quebraram. Trocou cartas com Winnie, como quem casara pouco antes da prisão, aprendeu boxe e em 1985 ainda tinha energia suficiente para recusar um pedido de liberdade condicional em troca da recusa da resistência armada. Nessa altura todos perceberam que a jura feita mais de vinte anos antes era para cumprir - assim que voltasse à liberdade a luta continuaria. A convicção valeu-lhe uma espera de mais cinco anos, sempre na cela com pouco mais de um metro quadrado.
Em 1990, Frederik Willem de Klerk, o último presidente branco da África do Sul, levantava a proibição dos movimentos negros e a 11 de Fevereiro Mandela voltava à rua equilibrando, pela primeira na história da África do Sul, a balança de poder entre brancos e negros. Os brancos, ainda no governo, sabiam que em eleições Mandela seria imbatível. Pelo seu lado, os negros, muitos sequiosos de vingança, esperavam pela oportunidade de conquistar o que há décadas ansiavam. Mas no discurso que fez na câmara da Cidade do Cabo, a palavra "paz" surgiu antes de "democracia" e "liberdade" e de garantir que o caminho que começara a trilhar há mais de trinta anos era irreversível. "Não podemos permitir que o medo nos atrapalhe. Sufrágio universal para os eleitores numa África do Sul não racista e unida é o único caminho para paz e harmonia racial", disse a concluir. Mas se Mandela foi gigante na resistência e, depois da subida ao poder, gigante ao evitar conflitos numa nação com onze etnias e uma profunda ferida a separar brancos e negros, pouco tempo teve para o ser enquanto governante. Prémio Nobel da Paz - partilhado com De Klerk - e eleito presidente da África do Sul em 1993, Mandela cedeu o lugar apenas cinco anos depois. Mais um exemplo dado a um continente marcado por líderes que se eternizam no poder.
Um divórcio litigioso com Winnie Mandela, um terceiro casamento aos 80 anos com Graça Machel (viúva de Samora Machel), um campeonato do Mundo de râguebi em que pôs negros a torcer pela seleção ‘branca' - a história está contada em Invictus, de Clint Eastwood -, um filho a morrer de sida e uma campanha mundial de angariação de fundos e de alerta para os perigos da doença valeram-lhe uma reforma ativa e a perpetuação do estatuto de Madiba, o pai da nação. Aos 95 anos, Mandela despediu-se depois de uma infeção pulmonar o ter obrigado a meses de internamento e outros tantos em casa já sem capacidade para, sequer, falar. Despediu-se "tranquilamente", garantiu o presidente Jacob Zuma, deixando o país em lágrimas. Em 95 anos de vida, a Mandela roubaram-lhe o tempo para ser gigante no poder e viver em liberdade. Retribuiu mostrando que não é o cargo quem muda o Mundo e deixou-o melhor do que o encontrou. No final de uma vida apressada, a longa caminhada foi cumprida. A África do Sul fica órfã, mas livre.

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